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O Incidente do Parquímetro Temporal
CAPÍTULO 1: O Caos Começa
Quibbletown nunca dormia. Por vezes, a cidade mergulhava numa breve sesta, interrompida pelo estrondo de um feitiço medíocre ou pelos gritos de vendedores ambulantes a oferecer poções mágicas «frescas» que tresandavam, mal disfarçadamente, a esgoto. As ruelas serpenteavam num labirinto, cruzavam praças congestionadas e abraçavam edifícios, brotados como que num acesso de febre mágica. Os candeeiros de rua, alimentados por feitiços de luminescência eterna, cintilavam ao ritmo dos humores dos seus zeladores. Sob a calçada, as águas entoavam melodias melancólicas, e o ar pesava com o aroma a pão torrado, eletricidade estática e aquela mistura energética peculiar conhecida como «magia urbana».
No centro deste caos organizado encontrava-se Wilfred "Willy" Spellburn — um jovem mago com ambições que superavam largamente as suas capacidades. Willy era alto, mas andava curvado, como se o peso do mundo o empurrasse contra o chão. O seu cabelo despenteado assemelhava-se a um ninho onde um pombo levara a cabo uma experiência arquitetónica fracassada. O seu manto, outrora azul-escuro, desbotara para um tom indefinível de «cinzento-feiticeiro». As suas meias, como sempre, não combinavam: a esquerda era às riscas e a direita exibia pequenos dragões bordados que pareciam tentar escapar do tecido.
O grande dia chegara.
Provarei que não sou um fracasso total, repetia para si mesmo.
A Guilda dos Magos — aquela instituição altiva que ditava as regras em Quibbletown — dera-lhe uma oportunidade. A tarefa parecia elementar: um feitiço para a otimização espacial do estacionamento.
A cidade padecia de engarrafamentos de proporções épicas. Carroças, tapetes voadores e até estátuas que ganhavam vida acidentalmente lutavam por cada centímetro de espaço livre. Os cidadãos recorriam frequentemente a subornos, ameaças ou a pequenas maldições para deitarem a mão a um pedaço de terreno.
Willy assumiu a sua posição na praça central. Ao seu redor aglomeravam-se mirones curiosos, alguns representantes arrogantes da Guilda e um número suspeitamente elevado de pombos, que pareciam antever o desastre. O Arquimago Velkor ofuscava os restantes: os fios de ouro nas suas vestes refletiam a luz com tal intensidade que cegavam as aves e pintavam pequenos sóis nas pedras. Velkor observava o jovem com a expressão de um juiz que já assinou a sentença e aguarda apenas o fim de uma aborrecida formalidade.
O rapaz apertava a sua varinha mágica — um modelo barato de uma banca de rua, publicitado como «quase sem uso». A madeira estava ligeiramente empenada e, de vez em quando, cuspia faíscas com cheiro a torrada queimada. Willy endireitou as costas e pigarreou.
— Minhas senhoras e meus senhores — começou ele, com a voz a tremer como a corda de uma harpa desafinada. — Hoje, vou mostrar-vos um feitiço que transformará o estacionamento em Quibbletown para sempre!
A multidão murmurou, incrédula.
— Espero que seja melhor do que o feitiço de limpeza que transformou a minha roupa lavada em sapos! — gritou alguém lá atrás.
Willy ignorou a provocação. Ergueu a varinha, fechou os olhos e começou a recitar a fórmula. Ensaiara-a a noite inteira, muito embora, por volta da meia-noite, tivesse adormecido sobre as páginas, deixando marcas de saliva no capítulo «Distorções Espaciais».
— Parcus Maximus… Spatium Reducto… — murmurava ele, enquanto o instrumento na sua mão começava a vibrar.
A multidão susteve a respiração, à espera de algo imponente, ou, pelo menos, de algo que não incendiasse o chapéu de ninguém.
O primeiro lugar de estacionamento, delineado com tinta luminosa, tremeluziu. As suas cores mudavam bruscamente — de azul para verde, até congelarem por fim num roxo alarmante. Willy abriu um olho. Aquilo não fazia, definitivamente, parte do plano. Com um estalido abafado, que lembrava o abrir de uma garrafa de vinho envelhecido, o retângulo traçado desapareceu. A magia tinha rompido a barreira espacial no lugar errado e, em vez de uma carroça, materializou-se outra coisa na praça.
Diante deles ergueu-se um troll. Colossal, com pele semelhante a granito e olhos que brilhavam como quartzo polido. Numa mão, segurava um livro de registos; na outra, um lápis mágico que parecia ridículo na sua palma maciça. O troll perscrutou os presentes, fixou o olhar em Willy e trovejou com uma voz semelhante a uma avalanche em derrocada:
— Tu. Estacionamento ilegal em O Vazio Rochoso. Multa: três cabras ou o equivalente cambial em cristais mágicos.
Houve um suspiro coletivo. Alguém no fundo não se conteve e deu uma risadinha.
Willy pestanejou. A sua confiança evaporava-se como água numa chapa a ferver.
— Mas... era só uma carroça com abóboras!
O troll franziu as sobrancelhas de pedra; o som fez lembrar o atrito de cascalho no fundo de um rio.
— Abóboras? Isso implica uma taxa adicional por resíduos biológicos.
Ele rabiscou algo no seu bloco de notas, e a multidão desatou a rir. Um dos magos da Guilda — um homem alto com uma barba que parecia ter vida própria — abanou a cabeça e murmurou algo sobre «uma geração de amadores». Velkor manteve-se em silêncio, mas pelos fios de ouro do seu manto correu uma faísca que se assemelhava a um sorriso oculto.
O rosto de Willy ardeu.
— Esperem! — exclamou ele, agitando a varinha em pânico. — Eu vou consertar isto!
Erro fatal. A varinha expeliu um feixe de faíscas que atingiu o lugar de estacionamento adjacente. Este desapareceu com um estalo seco e, no seu lugar, surgiu uma fonte. Não uma fonte comum, mas uma engenhoca que jorrava um espesso xarope de chocolate e entoava uma melodia que lembrava o hino de uma dimensão esquecida.
A multidão já não se ria. Rugia de entusiasmo. Os pombos, que até então observavam com um silêncio altivo, lançaram-se ao chocolate. Um deles — mais corpulento e com um olhar invulgarmente inteligente — poisou junto a Willy e grasnou:
— Isso roçou o heroísmo... se por heroísmo entenderes transformar a praça num bufete interdimensional.
Willy ficou estupefacto.
— Tu... falas?
— Naturalmente que falo — empertigou-se a ave. — Sou Archibald, ex-mago e vítima de um infortúnio na transmutação. Mas tu, rapaz, acabaste de ofuscar os meus maiores fracassos. Os meus parabéns.
Antes que Willy pudesse responder, o troll interveio novamente, com uma irritação crescente:
— Nova infração. Fonte sem o devido licenciamento. Multa: cinco cabras ou o equivalente em pedras semipreciosas.
— Eu não tenho cabras! — gritou Willy, sentindo a situação a fugir-lhe do controlo.
Voltou a agitar a varinha numa tentativa desesperada de um milagre. O terceiro lugar de estacionamento evaporou-se. No seu lugar apareceu um pequeno dragão, que parecia simultaneamente perplexo e ligeiramente ofendido. A fera exalou uma coluna de fogo, incendiando o chapéu de um dos altos magos, e a multidão aplaudiu, como se tudo fizesse parte do espetáculo previsto.
— Basta! — A voz cortou o alarido como um trovão.
Todos paralisaram. Até o dragão parou de cuspir fogo e inclinou a cabeça com curiosidade. Das sombras emergiu uma figura envolta num manto negro, que parecia absorver a luz em redor. Um rosto pálido, olhos como duas esferas de gelo e uma aura que forçou até os pombos a recuarem. Era o Inquisidor Grimble, líder da Guilda dos Inspetores de Estacionamento — uma organização que, em Quibbletown, incutia mais terror do que a maioria dos magos negros.
— Wilfred Spellburn — pronunciou Grimble, com uma voz que lembrava o bater da tampa de um sarcófago de pedra. — As tuas ações constituem uma violação do Artigo 47, Parágrafo 3 do Código de Magia Urbana: geração não autorizada de portais interdimensionais. Provocaste também o caos generalizado numa praça pública, o que é uma infração ao Artigo 12. E, o mais importante: espezinhaste a lei sagrada do estacionamento: nunca ocupes um lugar sem teres pago a tarifa.
— Mas eu não... não era minha intenção... — gaguejou Willy. Grimble ergueu a mão e as palavras prenderam-se-lhe na garganta.
— Tens três dias para limpar esta desordem — continuou o inquisidor. — Caso contrário, a cidade aplicará sanções. E as sanções, Sr. Spellburn, são extremamente desagradáveis.
O seu sorriso era como uma fenda num glaciar: gélido e ameaçador. Velkor fez uma vénia quase impercetível a Grimble — um gesto curto e formal entre colegas, não entre inimigos. Willy não reparou nisso.
A praça esvaziou-se rapidamente. O jovem ficou sozinho no meio do troll, do dragão, da fonte cantante e do pombo falante. O troll continuava a tirar notas no seu bloco, o dragão tentava lamber o xarope de chocolate e Archibald poisou no seu ombro.
— Bem, rapaz, isso foi impressionante. E agora?
Willy contemplou a ruína e sentiu o estômago dar um nó.
— Agora — murmurou ele com voz trémula —, acho que preciso de um chá muito forte. E, provavelmente, de uma nova identidade.
No fundo, sabia que não ia fugir. Quibbletown era a sua casa, e ele acabara de a transformar num parque de estacionamento interdimensional. Se não encontrasse forma de reparar os danos, Grimble certificar-se-ia de que a sua vida se tornaria insuportavelmente complicada.
Entretanto, o pequeno dragão descobrira a fonte de chocolate e contemplava-a com a expressão de uma criatura que acabara de encontrar o sentido da existência.